A defesa e preservação do ambiente começa com pequenos gestos. As nossas cidades, principalmente a capital do país, estão confrontadas com dois grandes problemas: o crescimento imparável da taxa de urbanização e a grande concentração da população em bairros degradados, sem ordenamento e com graves condições de saneamento básico. Esta é uma situação própria da maioria das cidades do Terceiro Mundo, que o Executivo quer inverter com a construção de centralidades munidas de todas as condições que garantem a qualidade de vida.

O aumento da população e o desordenamento urbano são terrenos propícios à acumulação de lixo à volta das zonas habitacionais. A proliferação de doenças decorre da falta de saneamento básico e retira a algumas zonas das cidades angolanas a virtude de serem um espaço bom para viver, para as transformar em ameaças à saúde pública.

A definição e a obrigatoriedade de cumprimento, de uma vez por todas, das normas de alojamento e habitação nas nossas cidades são passos fundamentais a serem transpostos para a via do planeamento urbano e na criação de condições de saúde pública.

Sem isso, as populações vão continuar a viver apinhadas sobre potenciais focos de epidemias. As doenças mais frequentes em Angola, que constam dos relatórios dos centros de saúde e hospitais de todas províncias, não enganam e estão todas associadas a más condições habitacionais e graves atentados ao ambiente. A malária, as diarreias e as doenças respiratórias agudas têm como origem o lixo e um mau ambiente. Nota-se um esforço das autoridades no sentido de melhorar o saneamento urbano. As políticas adoptadas devem ter continuidade, mas para terem sucesso é preciso continuar a apostar na criação dos novos centros urbanos e a uma velocidade superior ao crescimento demográfico.

Na continuidade das acções de construção e manutenção das nossas cidades reside o grande problema. Por falta dessa continuidade muitos efeitos positivos conseguidos no edifício da reconstrução nacional desmoronam-se. E isso não pode acontecer. Parar é morrer e a resignação nunca foi apanágio dos angolanos.

O respeito pelas normas e o ordenamento são necessários, mas a educação cívica permanente pela preservação do ambiente habitacional é fundamental. É preciso entendermos que o nosso espaço de vida chamado Angola é na verdade a Nossa Aldeia Global, que começa em cada um de nós.

Aglobalização angolana nasce em cada angolano e cresce do nível local, das nossas casas, bairros, bualas, comunas, municípios e províncias, para o todo nacional, de Cabinda ao Cunene e do Oceano Atlântico à Bota do Dilolo. Cada um de nós deve ter uma atitude que ajude melhorar a qualidade do ambiente nas cidades e vilas.

Muitas das nossas bualas são um exemplo de limpeza e protecção do ambiente, apesar das suas condições precárias. As nossas avós levantavam-se de manhã muito cedo, limpavam as cubatas e eram vistas a varrer o espaço circundante das casas. Esse hábito simples ainda é observado no mundo rural, mas nas cidades modernas esse ritual diário, que é um exemplo de promoção da saúde e do bem- estar, foi esquecido. As prioridades são outras e ficamos à espera das medidas estruturantes – a panaceia para todos os males.

Os bons hábitos da tradição foram substituídos nas cidades pela moda de urinarmos e defecarmos nas ruas ou contra muros e viaturas estacionadas, à vista de toda a gente. Os trabalhadores do comércio informal e ambulante estão entre os grandes produtores de urina, fezes e detritos sólidos na capital e nas grandes cidades de Angola. É fácil imaginar onde fazem as suas necessidades e para onde lançam o lixo. Essa é a maior vergonha da cidade de Luanda. A instalação de balneários públicos na capital está atrasada, mas não custa nada pedir a ajuda das empresas e moradores que circundam a venda informal e ambulante para colmatar o aperto e os próprios vendedores ajudarem na recolha e reciclagem do lixo produzido.

A tradição venceu a modernidade. É melhor viver no campo do que nas grandes cidades desordenadas e poluídas. As associações ambientalistas e ecológicas, uma componente essencial da sociedade civil angolana, deviam ter uma palavra a dizer sobre estas pequenas coisas. Mas estão mais preocupadas com os gases de efeito de estufa. Percebe-se porquê. O que conta é a Grande Aldeia Global.

PUBLICAÇÃO: JORNAL DE ANGOLA

COLUNA: PALAVRA DO DIRECTOR

DATA02/02/2014

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