Luanda nasceu aconchegada na Baía, cresceu para o Bungo e mais tarde ocupou a colina da Cidade Alta, protegida pelas muralhas da Fortaleza de S. Miguel. Depois desceu para os Coqueiros e parou no Convento do Carmo, nas velhas Ingombotas. Ao longo de muitos séculos as suas “fronteiras” pouco se moveram.

Na independência, a velha cidade tinha estruturas, insuficientes e más, para 500.000 habitantes.

Hoje Luanda tem metade (ou mais) da população desta imensa Angola. As estruturas do passado, insuficientes e deficientes, não aguentaram a pressão humana.

A nova cidade cresceu ao ritmo alucinante da chegada de milhões de angolanos que fugiam da guerra e aqui encontraram porto seguro. Neste período, só uma ínfima parte da cidade cresceu, para Sul, com planeamento, ordenada e com infra-estruturas. Quanto mais a cidade se agiganta e a população cresce, mais difícil é a sua gestão.

A antiga Câmara Municipal, que tinha o seu Leal Senado mas que sempre teve, também, uma importantíssima vertente técnica, deu lugar a uma nova estrutura, pesada, onde os serviços técnicos encolheram e a vertente política se agigantou, tanto como a cidade.

Esta realidade faz de Luanda um território com graves problemas e difícil de governar. A derrocada do prédio da DNIC, o surto de doenças “estranhas” aqui e ali, a destruição de habitações pelas calemas, o incêndio da Ilha de Luanda, a exploração da prostituição e o aumento do tráfico de drogas provam que a capital seria uma espécie de bomba de explosão retardada, se fossem adiadas as medidas que se impõem.

Para responder aos desafios, a ministra-governadora de Luanda, Francisca do Espírito Santo, a quem se reconhece mérito, competência e coragem, tem levado a cabo um programa bem pensado, melhor estruturado e eminentemente técnico para devolver a Luanda a sua dimensão de cidade organizada e ordenada.

Quando foi nomeada, houve quem visse no seu cargo de ministra apenas um enfeite. Mas não. Governar Luanda é mesmo tarefa para um ministério. E mesmo assim, nunca será fácil, apesar da competência demonstrada pela ministra-governadora e a sua equipa técnica, enfrentar todos os desafios, inclusive dos que podiam ajudar e não o fazem, só criticam.

As dificuldades duplicam quando a intervenção política desce ao nível indesejável da politiquice primária. É preciso resolver os problemas de água e saneamento. (Há dias estive no problemático bairro do Rangel e até bocas incêndio já estão instaladas, o que significa que há água). É preciso, também, requalificar a Ilha de Luanda para criar uma poderosa âncora ao turismo. Mas quando as primeiras barracas de cartão e chapas de zinco são demolidas logo se levantam vozes nacionais, com megafones internacionais, a reprovar a medida.

O arquitecto Troufa Real, nos anos 60, criou um projecto ambicioso e arrojado para requalificar os musseques. Por razões óbvias, as autoridades coloniais meteram o projecto na gaveta. Francisca do Espírito Santo decidiu, agora, trilhar esse caminho. O anúncio feito no Parlamento pela ministra-governadora de que só para requalificar algumas zonas urbanas precisa de realojar 20.000 pessoas mostra a dimensão do problema que temos pela frente.

O problema de Luanda é de todos, mesmo dos que provocaram o êxodo de milhões de angolanos para esta cidade. Temos a obrigação de colaborar na sua requalificação e na criação de condições de habitabilidade para todos. Enquanto se tratou de proteger vidas humanas ameaçadas pelas armas, o precário era óptimo.

Mas, hoje, temos de dar as mãos e oferecer, a esses angolanos, mais do que quatro chapas de zinco no tecto e paredes de papelão. O futuro não perdoa os políticos que não forem capazes de aplicar soluções para fazer de Luanda uma cidade normal.

PUBLICAÇÃO: JORNAL DE ANGOLA

COLUNA: PALAVRA DO DIRECTOR

DATA: 19/07/2009

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