Luanda é uma cidade centenária e só por isso precisa de cuidados especiais na protecção do seu Centro Histórico. A especulação imobiliária tem um apetite insaciável pelos espaços nos centros das cidades e grandes capitais do mundo foram desvirtuadas na sua matriz original por falta de uma política urbanística adequada.

Luanda é uma cidade centenária e só por isso precisa de cuidados especiais na protecção do seu Centro Histórico. A especulação imobiliária tem um apetite insaciável pelos espaços nos centros das cidades e grandes capitais do mundo foram desvirtuadas na sua matriz original por falta de uma política urbanística adequada. Os países que foram fustigados pela II Guerra Mundial tiveram esse problema. Na hora da reconstrução, surgiram edifícios modernos onde antes existiam monumentos que eram a memória desses povos.

Ao mesmo tempo, começaram a surgir movimentos cívicos que pugnavam pela conservação e preservação dos Centros Históricos. Essas áreas sensíveis foram protegidas, mas a partir dos anos 60 surgiu uma nova guerra, menos destrutiva, mas igualmente devastadora para a memória que sítios e monumentos representam para um povo. A desertificação humana levou a ruína aos Centros Históricos e surgiu uma nova vaga de construções modernas no coração da História.

Hoje, a UNESCO e outras instituições tentam salvar o que resta, classificando sítios e monumentos como Património da Humanidade.

A Baixa de Luanda começou a ser atacada nos anos 50 e foi adulterada durante a década de 60. Falo do casario que começa nos Coqueiros e toda a área urbana que nasceu à volta da Igreja dos Remédios (a Sé de Monsenhor Alves das Neves), os chamados palácios assobradados, com os seus quintalões onde os escravos eram guardados até à chegada dos barcos negreiros, e os edifícios públicos no perímetro que acaba no Banco Nacional de Angola e incluem a imponente Alfândega. No alto da colina temos todo o centro político-administrativo, com preciosidades como o casario da Rua do Casuno ou as imponentes igrejas de Jesus e da Misericórdia. O Paço do Bispo e o Palácio são igualmente peças que marcam a memória da cidade.

Na Baixa temos outros sítios de excepcional interesse cultural. O quarteirão que inclui o edifício da empresa Mabílio de Albuquerque, com exemplares fabulosos de art déco, o Palácio das Telecomunicações, o Palácio dos Correios. Mais além, temos a Igreja da Nazaré embora já não exista pedra sobre pedra do Convento dos Jesuítas, onde foi instalada a primeira máquina de imprimir em África. Temos depois o casario do Bungo, de tal forma adulterado que está quase irreconhecível.

</O que acaba de ser classificado, a partir de agora tem de ser cuidado, protegido e acarinhado.>

A Baixa tem nos restos da “Minerva”, a primeira grande empresa gráfica de Angola. Nasceu na zona onde no último quartel do século XIX surgiram quase todos os jornais de Luanda e as respectivas tipografias, porque quase todos tinham oficinas próprias. O Palácio do Comércio, onde está o Ministério das Relações Exteriores, é a maior obra de construção privada de Luanda. Foi construído para sede da poderosa Associação Comercial de Luanda, na época sob o impulso de Farinha Leitão, um abastado comerciante que esteve ligado aos mais importantes projectos da imprensa em Angola, inclusive à fundação do “Província de Angola”, hoje “Jornal de Angola”. O edifício do nosso jornal e o que albergou o antigo “Comércio de Luanda” são igualmente peças de valor cultural extraordinário para Luanda. Ambos nasceram nos anos 20 e foram construídos de raiz como projectos de jornais. Sexta-feira, a ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, esteve aqui, colocando nesta velha casa, que é um marco indelével da imprensa angolana, uma placa que atesta a sua importância histórica e cultural.

Estamos a viver um momento único na vida da cidade de Luanda. Não apenas porque este edifício elegante já não vai ser vítima do camartelo, mas porque toda a Baixa de Luanda está protegida de atentados urbanísticos, em nome de nada, ou de muito pouco. Porque não há dinheiro que pague a memória de um povo e o seu longo percurso para a liberdade. O que está estragado já não tem remédio. O que acaba de ser classificado, a partir de agora tem de ser cuidado, protegido e acarinhado.

Luanda não nasceu no dia da Independência Nacional, nem é uma moda passageira. A cidade viveu séculos de tragédias passionais, amores felizes, guerras, grandezas, sucessos, insucessos, fome, abastança. Esta magnífica cidade tem nas madrugadas uma brisa quente que faz dela única e inesquecível.

Está nas nossas mãos tratá-la com a dignidade que merece e o respeito que lhe é devido. Duas mulheres, Rosa Cruz e Silva e Francisca do Espírito Santo, estão a trabalhar para isso. É dever de todos ajudá-las na justa causa de salvar cada pedra de Luanda que guarda a nossa memória e o nosso passado.

PUBLICAÇÃO: JORNAL DE ANGOLA

COLUNA: PALAVRA DO DIRECTOR

DATA: 25/04/2010

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